A população LGBTQIA+ voltou a ser pauta em nosso país ao longo desta semana. Desta vez, o assunto veio à tona quando o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, ordenou que todos os livros com esta temática fossem embalados num plástico preto e marcados como conteúdo impróprio, na Bienal do Livro do Rio. Tudo começou quando imagens de uma HQ, que mostrava dois personagens masculinos se beijando, chegou ao conhecimento do prefeito. De acordo com ele, o beijo entre dois homens deveria ser considerada pornografia [era apenas um beijo, de fato]. Obviamente estamos falando de um ato de censura. Sim, censura! Estamos em 2019 e vivendo algo que não acontece há 40 anos [aos que não sabem, há 40 anos vivíamos o período da Ditadura Militar – e, sim, existiu ditadura, sim!]. Amor não é pornografia.

Este acontecimento acabou gerando julgamentos equivocados nas redes sociais, sobre sexualidade, especialmente no que tange a população LGBTQIA+. Uma das perguntas iniciais é: nós nascemos com uma determinada orientação sexual ou escolhemos com o passar do tempo? A heterossexualidade é tida como “normal e esperada”, contudo, a reflexão que queremos propor é: em que momento da vida uma pessoa escolhe ser heterossexual e se atrair pelo sexo oposto?

Há uma infinidade de teorias que tentam explicar a sexualidade e suas variações, sejam elas biológicas, psicológicas, psicanalíticas, antropológicas e tantas outras. Até o momento, nenhuma delas encontrou a evidência chave para responder essa pergunta.  Agora, caro leitor, você também já parou para pensar sobre as causas da heterossexualidade? Na natureza, a homossexualidade é observada em mais de 450 espécies e isso ocorre de maneira natural, afinal, a sexualidade é possível nas suas mais diversas pluralidades. Já a LGBTQIAfobia temos observado apenas em uma espécie. O que parece estranho para você?

  O periódico científico Science, publicou recentemente um estudo concluindo que não existe o famoso “gene gay”. A teoria que se espalhou por volta dos anos 90, caiu por terra com os dados da recente pesquisa. O resultado indica que não é possível prever o comportamento sexual a partir do genoma de uma pessoa.

Alguns líderes religiosos costumam dizer que “A homossexualidade é um comportamento aprendido…”; “…Ser gay é preferência, aprendida ou imposta.”, entretanto, alguns autores, por exemplo, Catania (1999) defendem que “o comportamento que é socialmente transmitido sobrevive por causa de suas consequências”. Em outras palavras, se todos os comportamentos aprendidos são comportamentos selecionados por suas consequências e, tendo em vista que a sexualidade que diverge da hétero sofre consequências que são culturalmente aversivas (isto é, desagradáveis, punitivas, etc), então a afirmação sobre a orientação sexual ser um comportamento aprendido ou imposto não segue a lógica comportamental.

A melhor maneira de compreender a orientação sexual de alguém, é entender que ideia de que o comportamento sexual e as variadas expressões da sexualidade não se refere a “meros comportamentos aprendidos”, mas sim, à uma interação do indivíduo com diversos – e complexos – fatores culturais e comportamentais.

Questionamentos a respeito da sexualidade natural

Pensar que a sexualidade, em sua pluralidade, não é algo natural, trata-se de um grande preconceito, de uma crença infundada. Essa crença equivocada criou um preconceito social que nos fez pensar por um longo tempo que qualquer LGBTQIA+ é uma pessoa “anormal”, sendo considerado algo que não deveria acontecer.

Mas eu aprendi que é errado, a bíblia diz que….” Você já parou para pensar que seus bisavós poderiam pensar da mesma forma que você com relação à escravidão? A bíblia apoia a escravidão e nem por isso você levanta essa bandeira, não é mesmo?!

Ainda que você leve a questão religiosa em conta, de acordo com a cultura judaico-cristã, é Deus quem irá julgar os pecados, certo? Se sua resposta for sim, então, quem é você para julgar o que os outros fazem? Essa não é a tarefa de Deus? Não é muita pretensão querer julgar o pecado de outro sendo você também um pecador?

Agora esqueça um pouco a questão religiosa. Você já parou para pensar que essa crença de que ser LGBTQIA+ não é natural, já fez muitas pessoas serem rejeitadas, maltratadas e até mesmo assassinadas, presas e torturadas?

Você considera correto que alguém passe por tanto sofrimento por não seguir os padrões inventados pela sociedade?

“Mas isso destrói famílias…” Quais? A que você idealizou para todo o mundo ou a sua? Se sua resposta for uma das duas, o problema está em você e não nos LGBTQIA+.

Mudar a nossa perspectiva em relação aos LGBTQIA+

Ainda existe, nos dias de hoje, pessoas que não se arriscam a “sair do armário” e que se sentem reprimidas pelos ideais da nossa sociedade [isso é ainda mais evidente em cidades que estão fora dos grandes centros]. Há muitas pessoas que não conseguem aceitar a si mesmas, porque, infelizmente, acreditam na crença equivocada da qual falamos anteriormente: “eu sou anormal”.

Quando as pessoas não se aceitam como são, elas podem sofrer de ansiedade e depressão, pois passam a pensar que não são “normais”, criam esquemas e crenças internas muito destrutivas e a partir daí, passam a ter pensamentos disfuncionais de que elas não são amadas por não fazerem parte dos padrões sociais. Em função disso, essas pessoas passam a ter sentimentos e comportamentos muito destrutivos. “Por que isso aconteceu comigo?”; “Por que não sou ‘normal’?”; “Por que não consigo me apaixonar por alguém do sexo oposto?”; “Com certeza eu sou um doente” “Sou um desgraçado que nasceu para ser triste”; “Ninguém me ama”; “Eu devia morrer”, etc…

Precisamos refletir sobre esse assunto, é importante mudar nossos pensamentos irracionais por outros que sejam mais racionais no que se refere à sexualidade, contudo, enquanto isso não acontece, precisamos respeitar. Respeitar a pluralidade. Respeitar outras formas de amor. Pode até não ser comum, mas é normal [já diz a música].

A sexualidade, seja ela lésbica, gay, bi, trans, travesti, queer, intersexo, andrógena ou mais, é uma característica natural do ser humano. Esta é uma realidade presente em todas as culturas e etnias; portanto, não podemos considerá-la anormal. É como ter cabelos ruivos e olhos claros; poucas pessoas têm, mas é perfeitamente normal e natural.

Nossa orientação sexual não determina o nosso valor pessoal. Ser LGBTQIA+ ou heterossexual não determina o nosso valor pessoal. Ou seja, ninguém é anormal ou um miserável por sua orientação sexual. As pessoas são diferentes entre si e com uma infinidade de características próprias. O que deve ficar claro é que são essas características que nos valorizam, independentemente de como a sociedade rotula as pessoas.

Infelizmente ideias LGBTQIAfóbicas continuarão existindo, já que algumas pessoas insistem em disseminar aquilo que acreditam, ainda que isso seja embasado no ódio e no preconceito. Isto também ocorre com o racismo e o machismo, por exemplo. Acontece de um jeito diferente, é claro, mas também segue presente e enraizado na cerne social da nossa estrutura enquanto sociedade. Ter clareza e consciência destes aspectos é um primeiro ato importante de resistência e que nos dá alguma possibilidade de mudança.

Precisamos nos unir para nos tornar mais fortes. Não se cale e não permita que a censura nos vença. Durante vários anos as causas LGBTQIA+ eram invisíveis e, ainda hoje o acesso segue difícil fora dos grandes centros, contudo, estamos num passo à frente da realidade de antes, não seja conivente com o retrocesso.

A invisibilidade mata. Ser LGBTQIA+ é tão normal quanto ser heterossexual. Amor não é pornografia.

Referências:

Brito, S. (2019). Pesquisa conclui: não existe um gene gay. São Paulo: Veja. <Disponível em: https://veja.abril.com.br/ciencia/pesquisa-conclui-nao-existe-um-gene-gay/>

Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. Porto Alegre (RS): Artmed.

Sobre os autores:

Paulo Alencar é psicólogo Cognitivo Comportamental (CRP 06/137862), tem Formação em Terapia Comportamental Cognitiva em Saúde Mental, pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). É pós-graduando em Terapia Cognitivo Comportamental pelo ITC – Instituto de Terapia Cognitiva. Realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos, idosos e LGBTQIA+. Seu consultório se localiza na Rua Augusta, 1939 em São Paulo, próximo ao metrô Consolação. Possui interesse em música brasileira / flashback , cinema, parques, esportes radicais e tecnologia. Contato: (11) 99735-1268, e-mail, Site, facebook, Instagram, Linkedin

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contato: Facebook; Instagram; E-mail.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

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