Aquele sobre tempos modernos

            Tem mais alguém reparando que o mundo não anda querendo lidar com as nossas emoções? Daqui a pouco os chineses fabricam algum silenciador de sentimentos. Aliás, vou dar uma busca na AliExpress para me certificar de que isso ainda não existe (risos).

          As coisas andam bem estranhas por aqui. Para mim, então, nem se fala. Sou do tipo de pessoa que quando me alegro ou desanimo, reconheço (na maior parte das vezes, eu escancaro mesmo rs). Quando parte do que sinto é causado por outras pessoas, opto por compartilhar com elas. Você já compartilhou um desconforto na intenção de pensar em como chegar numa resolução e, ao saber a respeito, a outra pessoa sumiu da sua vida? Parece que ninguém quer ter contato com o que causa no outro, principalmente se for algo que pode gerar algum desconforto. Por acaso, isso acontece com você também?

       Mas não é só com o que é desconfortável que as pessoas se incomodam. A alegria também incomoda. Vocês precisam me ver no bar. Concordo que, talvez, eu não saiba me comportar tão bem (risos). Admito que minha risada é alta demais e que a minha voz também, mas toda vez que rio (não de água, de risada mesmo, risos), centenas de olhares se voltam; alguns esboçam um sorriso junto, mas muitos outros me repreendem com o olhar. Nesses momentos tenho vontade de pegar um megafone e avisar: “Pessoal, só queria que soubessem que estou feliz, façam o mesmo. Por acaso, alguma lei sobre moderação foi instaurada e não me contaram?”

    Às vezes nós sentimos coisas demais e algumas dessas coisas sentimos com muita ênfase. Você se sente assim também? Parece que sentir demais tem sido um problema para as pessoas. Rótulos como dramáticx, Maria do Bairro, escandalosx, aparecidx e tantos outros são bastante comuns. Agora pensa comigo: com tanta repressão, a gente passa, em algum momento, a não aceitar o que está sentindo e nem quer mais sentir coisa alguma. Às vezes tenho a impressão de que o mundo anda querendo que nos comportemos com discrição e sabe o que isso tem gerado? Aquele sentimento famoso de “por mais que eu faça, nunca é o suficiente”.

A gente tá com tanto medo de sentir coisas, que muitas vezes acaba nem percebendo que o esforço despendido para evitar qualquer risco de sentir é um sofrimento danado (como se sofrer fosse algo possível de ser evitado!).

Há uma onda forte na internet que vem contribuindo para desconstrução de tantos padrões severos que nos acompanharam ao longo de tantos anos (nem tudo está perdido, risos). Já começamos a questionar essa regra de ser altruísta e de priorizar o outro (finalmente!). Agora “o sentir” começa a ser autorizado e encorajado. É claro que tudo será um grande processo e a mudança é lenta.

As pessoas esperam de nós autoconfiança e amor próprio, mas considerando o bocado de coisas que temos que atingir, o melhor que podemos fazer por nós é aceitar as nossas inseguranças e abandonar a sensação de insuficiência. A propósito, faça isso com as suas e, também, com a das pessoas que convivem contigo. Aceite a tristeza, a raiva, a alegria e o que mais tiver de ser. Aliás, aqui vai uma sugestão grandiosa sobre amor próprio: não se obrigue a ser suficiente (sabe-se lá para quem ou para o quê), você não precisa disso.

Sobre o autor:

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Você também pode me acompanhar pelo Instagram ou pelo Facebook.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

4 comentários

    1. Carlos, desculpe pela demora em responder o seu comentário. Mas, fico muito agradecido com seu feedback! É bom saber que contribuiu de alguma maneira.
      Abraço!

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