Oi, triste solidão, seja bem-vinda

          Esse lance de ser 8 ou 80 é bastante perigoso. Quando alguém me conta com orgulho sobre ser assim, eu confesso que observo e julgo [risos]. Nós não lidamos bem com as extremidades, elas dificilmente são saudáveis. Vai me dizer que você nunca se percebeu muito feliz e teve medo de que a vida viesse e lhe surpreendesse com uma tristeza? Sabe aquele momento em que você sente a barriga doer de tanto dar risada e pensa “Dá até medo rir tanto assim, em breve a vida vem e me faz chorar”? [se você disse não para as duas perguntas, ponto para você]

          A tristeza costuma ser um sentimento injusto. Ela é capaz de diminuir ou fazer desaparecer tudo aquilo que construímos. É  uma espécie de cegueira que nos impede de ver nossos avanços, nossas conquistas e tudo aquilo de bom que há em nós. É difícil levantar do poço que nos afundamos e, de um jeito estranho, parece que sofrer está na moda [ponto para indústria farmacêutica que só enriquece].

          O problema de viver nos extremos é que a gente acaba sentindo demais. Eu, particularmente falando, acho que não há tanto problema em sentir tudo demasiadamente, só que a gente precisa aprender a lidar com a gente mesmo para segurar a marimba desse “sentir desgovernado”. Os românticos chamarão isso de intensidade. Mas, convenhamos, o mundo não está a favor dos intensos. O drama de alguém que se intensifica demais tem sido essa superficialidade cotidiana do “mundo real” [superficialidade e real, talvez não devessem existir na mesma frase, não acha?].

          É muita prepotência achar que você entende aquilo que se passa dentro de outra pessoa. “Acorda, Alice”, às vezes a gente não consegue entender aquilo que está acontecendo “dentro da gente”. Entristecer virou algo apavorador, algo que ninguém quer ver ou deixar que sintam. Sabe quando você diz ao seu amigo – cheio das melhores intenções – algo como “não gosto de te ver triste”? Por melhor que seja a sua intenção, de algum jeito você está dizendo para ele não se sentir desta forma perto de você. Com o tempo, depois de tantas represálias, a gente opta por ficar triste sozinho, decide molhar os travesseiros, sozinho, dentro do nosso quarto: bem-vinda, solidão.

          Às vezes é difícil organizar tudo o que se passa “aqui dentro”. Você já reparou como há tantos sentimentos que se opõem e que são sentidos ao mesmo tempo? Eu, por exemplo, consigo me sentir feliz olhando para minha carreira, para alguns dos meus amigos, para o futuro que almejo. Contudo, uma tristeza desenfreada se apossa de mim quando penso nos amores que não vivi e que não viverei, quando sinto medo por não ter feito a diferença na vida de alguém, quando reflito que nem sempre consigo fazer o que faço da melhor maneira que gostaria.

          Parece controverso, mas apesar de não tolerar a nossa tristeza, a sociedade contribui para que nos sintamos assim cada vez mais. Já reparou em todas as regras e protocolos que precisam ser cumpridos para ser feliz? Há cabelos, peles, corpos, jeitos, maneiras e tantas formas que se estabeleceram para nos estabelecer uma maneira “certa, “adequada” e “esperada” para agir.

          O mundo não está me parecendo muito legal hoje e eu quero me permitir terminar esse texto sem uma boa perspectiva, não pelo fato de não acreditar que ela virá, mas para que sirva como um modelo para que você veja que está tudo bem em ficar triste e, se você quiser, pode ficar triste pertinho de mim. A gente toma uma cerveja, acende um cigarro, vê uma série e chora juntos. O final triste é minha forma de protesto, uma maneira de pensar que a gente precisa reconhecer e aceitar as nossas dores. Está tudo bem em ficar triste, em ficar feliz e, também, em ficar feliz e triste ao mesmo tempo. Não é isso que faz de você uma pessoa complicada. Isso faz de você uma pessoa humana.

Sobre o autor:

Alex Valério é Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Psicólogo pela Universidade Nove de Julho. Colunista no Psicologia Acessível e, também, escreve para o próprio blog. Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado na Avenida Paulista, em São Paulo. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia. Contato: facebook.com/ominutoterapia.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

4 comentários

  1. Incrível como você escreve fácil. Consegue transmitir todo sentimento e faz a gente refletir, pq olha, não é fácil segurar essa marimba. Rsrs
    Parabéns pelo texto… Sucesso sempre ^^

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    1. Nossa muito bom o texto, adorei!
      É a mais pura verdade o que você escreve, não tem problema em sentirmos tristes as vezes ou mais vezes. Muito menos estar feliz e depois estar triste. Me sinto muito assim as vezes. O importante é encontrar o equilíbrio entre essas duas emoções 😍🙏
      Abraços

      Curtido por 1 pessoa

      1. Obrigado pelo comentário, Mirian! De fato, precisamos nos autorizar o sentir. As emoções são humanas e, portanto, inevitáveis. Agradeço muito por seu comentário 😉

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