Deixa de ser arcaico, quadrado e insensível. Talvez não seja o mundo que esteja chato, talvez seja você

          Existem aqueles problemas que são inevitáveis, mas existem também aqueles que nós criamos para nós [frase de uma grande e sábia amiga, que sugeriu que inspirasse um texto]. Pois é, esse é um dos dilemas que a humanidade nos propiciou: a habilidade de criar problemas que não precisaríamos ter. Falando assim, parece que toda e qualquer decisão que tomamos é friamente calculada, mas não é assim que funciona. Até porque, não é incomum nos surpreendermos com as peripécias que cometemos. Caso você não se surpreenda consigo mesmo, você possivelmente é o tipo de pessoa que as outras apontam como um criador de problemas nato e que, pior, não consegue nem reconhecer o mal que causa a si e, certamente, aos outros.

          Normalmente, escrevo para empatizar, para mostrar as pessoas o quanto todos os nossos sentimentos são completamente aceitáveis e, também, para evidenciar nossa tendência em agir violentamente contra o que somos, o que demonstra pouca habilidade de empatizar com a nossa própria história. Hoje, decidi fazer diferente, quero discutir a respeito das relações que estabelecemos e do quanto podemos contribuir para tornar a vida de outras pessoas mais fácil, mas por alguma razão individual de cada um – consciente ou não – fazemos o contrário: causamos ao outro mais mal do que bem.

          Aliás, por falar em empatia, às vezes falta com o outro também, não é? Muitas vezes, na ânsia de evitar um desconforto emocional, partimos para o ataque ao outro e nem sequer consideramos o que foi dito. Especialmente na internet – mas não apenas nela – vemos uma disputa em “ter razão”. É como se opiniões diferentes não pudessem coexistir, sendo necessário agredir o outro para fazer valer o que você pensa ou sente.

          Vira e mexe escuto coisas como “as pessoas estão ficando chatas”; “já não se pode dizer mais nada”; “hoje em dia, qualquer coisinha, vira um coisão”. Entendo que algumas coisas nós falamos mais por hábito, do que conscientes do real significado que estamos dizendo. Mas, me conta, o fato de você não fazer por mal, significa que outras pessoas não podem se ofender com o que você diz e/ou faz? Na real, o mundo não está nada chato para uma galera que viveu marginalizada, sofrendo racismo, misoginia, gordofobia, homofobia e tantas outras formas de preconceito.

          Tratar como “mimimi”, quando alguém diz que não gostou ou que se ofendeu com algo que você fez, é agir como um completo babaca. É desconsiderar o direito da outra pessoa em exigir respeito. É diminuir as dores e os dramas da vida alheia que você, provavelmente, desconhece ou nunca experimentou. Se você ofende uma pessoa – que está verbalizando que se sente ofendida com algo que você fez ou disse – o mínimo que se espera, é que você peça desculpas por isso. Agora, se você acha tudo o que esta outra pessoa sente uma grande bobagem e a considera alguém com muitos melindres, tornando difícil para vocês o diálogo, afaste-se [será o melhor para você e, especialmente, muito melhor para ela]. Ninguém é obrigado a viver se vigiando o tempo todo, impedido de agir com naturalidade [embora, confesso que gostaria que algumas pessoas fossem impedidas de ser naturais… risos]. Do mesmo modo, não há ninguém obrigado a conviver com o desrespeito. Se não há maturidade para o diálogo e o respeito das diferenças, faça-nos um favor: me poupe, se poupe e nos poupe.

          Não acho que o mundo está chato, aliás, nem gosto dessa expressão, pois ela diminui e invalida a luta pela visibilidade de uma série de problemas sociais que, durante muitos anos, estiveram invisíveis. Nós temos atitudes e pensamentos que agridem outras pessoas o tempo todo, reconhecer a falha das nossas ações não deveria ser vergonhoso, é humano. Antes de rejeitar a opinião do outro, permita-se ser acessado pela ótica dele, ainda que seja muito distante da sua realidade e dos seus valores. Aprenda que se desconstruir pode ser um sinal de progresso.

          É importante olhar para nós, para aquilo que o outro causa na gente e para o que causamos no outro. Paulo Freire já dizia que a ausência de uma educação libertadora, faz o oprimido sonhar em ser o opressor. Portanto, assim como há uma linha tênue entre o amor e o ódio, há, também, entre o oprimido e o opressor. Atualmente, você oprime ou é oprimido?

 

Sobre o autor:

Alex Valério é Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Psicólogo pela Universidade Nove de Julho. Colunista no Psicologia Acessível e, também, escreve para o próprio blog. Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado na Avenida Paulista, em São Paulo. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia. Contato: facebook.com/ominutoterapia.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

4 comentários

  1. Bom.dia Alex. PARABÉNS seu texto relata o cotidiano de.muitas pessoas que ainda não se percebem neste comportamento automático. Boa reflexão para quem está disposto a melhorar seus comportamentos. Abraço

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    1. Oi, Marisa! Eu agradeço demais pelo seu feedback! É sempre muito bom ler o que as pessoas pensam a respeito do que escrevo. Sempre que quiser passar por aqui, será muito bem vida! Abraços!

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  2. Um texto super real que retrata muitas relações que vivemos hoje. Também já escutei muito que o mundo está chato, porém nunca havia parado para refletir sobre essa frase. Com esse texto? Além de refletir, pode parar e pensar se tenho feito papel de opressora pra alguém, e assim, poder parar e repensar para ser uma pessoa melhor. Obrigada por compartilhar tanta coisa importante! Parabéns!!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ca, você sempre uma querida! Acho que esse lance da “chatice” do mundo anda cada vez mais frequente. Mas, é importante refletir e estar sensível ao outro, pois é numa dessas que atingimos alguém, com algo que nos parece tão pequeno. Agradeço muito pelo seu comentário e pelo carinho! Beijo super.

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