A imensidão do eu, na brevidade do agora: vivendo na superficialidade de si

            É curioso pensar que vivemos parte das nossas vidas valorizando pessoas e/ou costumes que não toleramos. Confesso que também fico um pouco assustado quando percebo que competimos uns com os outros o tempo todo. Aliás, competir é algo que passou a ocorrer em todas as relações: temos de ser o melhor amigo de alguém; o melhor funcionário; o estudante nota 10.

            Você já conheceu alguém que, ao entrar numa relação amorosa, não quer ser a pessoa que gosta mais? É comum ouvirmos que há alguém que gosta mais e outro que gosta menos. No geral, nós queremos ser a pessoa que gosta menos, o risco de sofrimento, em tese, parece menor. Importar-se com o outro e querer estar próximo, tem sido interpretado como “correr atrás”. Insistimos em falar que preferimos estar sozinhos, quando no fundo o que queremos é estar com um outro. A propósito, o contrário também é válido: às vezes só nos forçamos a estar com alguém, porque estar só pode ser sinal de fracasso.

            Ultimamente, confesso que ando com bastante dificuldade para levar a sério pessoas que dizem não criar expectativas. Meu bem, deixa eu contar uma coisa? Não querer ter expectativas já é, por si só, uma expectativa e tanto. Aliás, digo mais: é a mais furada das expectativas que você pode ter. Não se sabote. Não deixe de olhar para si. Não deixe que a vulnerabilidade da sua humanidade te prive daquilo que você desconhece. Experimente ser gentil com você, permita-se querer algo, arriscar-se.

            Há tantas verdades sobre nós que gostaríamos de esconder e que lutamos para não sentir. Vai me dizer que você nunca disse algo que te magoa em tom de brincadeira para fazer parecer que se trata de uma coisa que não machuca tanto? Passamos vários momentos da vida vivendo no raso, preferindo a segurança das margens, da superfície. Mergulhar é arriscado demais.

            O grande problema da nossa geração é que somos pessoas que fugimos da dor. O receio do sofrimento nos faz evitar, inclusive, as coisas que desejamos ter ou fazer. Prova de que o mundo quer se esforçar para poupar a dor é o merthiolate. Na minha época, passar aquele negócio doía mais do que o tombo em si. Hoje em dia, as crianças nem sabem que ardia. Antigamente a gente tinha de cuidar para não abrir os olhos no banho quando o shampoo está no cabelo, hoje você pode comprar algum anti-ardência.

            Pasmem: houve uma época em que era comum as pessoas se conhecerem em bares ou serem apresentadas por amigos em comum. Hoje em dia fazemos tudo pelo celular, através do toque na tela do aparelho, no aconchego e segurança dos nossos quartos.

            Não surpreende o fato de que o mundo está mais infeliz, de que estamos mais solitários e adoecidos. Nem sempre tratamos com prioridade aquilo que deveríamos. Temos nos contentado com a imediaticidade do antídoto que estiver disponível. Mas, se há um perigo real nisso tudo, é o da não relação, tanto a que acontece entre as pessoas, assim como aquela que cada pessoa deveria ter consigo.

            Deixar-se alcançar não é fácil, entretanto, não é possível assumir riscos dentro da nossa zona de conforto. Por mais assustador que algo possa ser, continuar no mesmo lugar, imóvel, fazendo tudo sempre igual, também é. Arrisque se mostrar para alguém. Arrisque se ver de perto. Empatize-se com a sua história, valide seu esforço, cuide de você.

 

 

Sobre o autor:

Alex Valério é Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Psicólogo pela Universidade Nove de Julho. É redator no Portal Comporte-se, colunista no Psicologia Acessível e, também, escreve para o próprio blog. Realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos e casais. Está localizado na Avenida Paulista, em São Paulo. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia. Contato: facebook.com/ominutoterapia.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

2 comentários

  1. Excelente texto! Retrata nossa triste realidade, vivemos constantemente nos esquivando de relações de verdade, relações que hora ou outra vai doer Sim, mas também traz o sentimento genuíno e gostoso de se viver…aquele que a gente passa Boa parte da vida tentando achar!

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  2. É como eu sempre digo, permita se!
    Mergulhar é arriscado demais, mas te faz crescer um montão. Por vezes, perdemos o fôlego e achamos que vamos morrer afogados (em lágrimas talvez) mas sempre há força pra voltar a beira e descansar.
    Adorei o texto! Adoro todos.

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