Sobre como as comédias românticas estragaram as nossas vidas

            Hoje, vamos refletir sobre como as comédias românticas acabam com as nossas vidas e como elas prestam um desserviço à nossa saúde mental. Provavelmente as próximas gerações também serão vítimas dessa romantização da vida, das pessoas, do sexo e, principalmente, das relações.

            Você já deve ter assistido algum clássico Hollywoodiano que falava sobre amor e sobre como as pessoas que se apaixonam são felizes ao viver essa “magia” (atenção: muitas aspas nesse lance de magia). No geral, a trama dos filmes envolve um início de relacionamento surpreendente, mas que por uma série de adversidades acaba afastando o casal principal, mas, no fim das contas, tudo se acerta e o “felizes para sempre” acontece. Quando não é assim, um dos personagens morre e “desgraça nosso coração”. Geralmente aquele que fica vivo, fica vivendo para mostrar o quanto quem se foi é inesquecível e insuperável (por que é que a gente gosta desses clichês?).

            Depois de assistir filmes como estes, uma perguntinha quase instantânea nos invade: “Por que é que isso não acontece comigo?” Pois é, por quê? Não se preocupem, o tio aqui vai contar para vocês o porquê: é porque nós somos pessoas reais, com vidas reais. Se nós fôssemos atores, seria fácil encenar uma ficção e comover telespectadores de todo o mundo. A vida não é como nos mostram nas telinhas do cinema. Isso que nós temos aqui fora é muito mais difícil, porque isso aqui é de verdade.

            Existe uma pressão social que determina que devemos nos relacionar com alguém, dividir a vida, compartilhar os momentos e sentimentos. Isso começa tão cedo e se enraíza a nós de uma maneira assustadora. Você já deve ter presenciado pais que ficam sabendo da gravidez de um casal de quem são amigos dizer que a depender do sexo da criança, ela será a “namoradinha (o)” do filho deles. Alôôôô, o bebê mal saiu de dentro do útero e você já tá arrumando um par para ele. Por quê?

            Boa parte dos problemas psicológicos que encaramos, depois de adultos, são resultados dessa ditadura do amor. É triste pensar que nós crescemos aprendendo que não somos completos e que a completude só é possível quando encontramos o “amor da vida” (amor da vida, gente?). Quando adultos, parece que o tempo se torna uma corrida que nos obriga a conquistar aquilo que falta em nós.

            Tem outra história que ouço há muito tempo e, por sorte, com esta eu nunca concordei e sempre estranhei (ainda bem!). De onde é que saiu essa regra de que a gente só ama uma vez? De que só o primeiro amor é o que fica? Esse é mais um exemplo dessa romantização absurda das relações. Nós somos capazes de amar várias e infinitas vezes. O fato de uma relação ser diferente da outra não quer dizer nada, quer dizer apenas que nós mudamos e, também, que a pessoa atual é outra e não a mesma com quem você se relacionou antes (o que por si só já implica nas diferenças).

            Ultimamente nós estamos criando tantas regras, exigências e técnicas, que está mesmo complexo demais gostar de alguém. Gostar poderia ser leve, mas também pode ser pesado. Gostar pode ser do jeito que você quiser, mas espera-se que, pelo menos, seja algo que lhe faça bem, que te faça sentir melhor na presença e, também, na ausência (eu diria que PRINCIPALMENTE na ausência, por que a gente não vive com o outro o tempo todo). Não se obrigue a estar com alguém para não ficar só, para não deixar “escapar o amor”. O amor não é escapável, ele é recriado e reinventado sempre que a gente se permite. Se não deu certo com alguém, o mundo tem mais de milhões de pessoas, há muitas chances e muitas possibilidades. E lembre-se, você pode sentir o amor do seu jeito, não há regras. Antes de amar outra pessoa, comece se amando, se aceitando, se desejando. Aprenda a se sentir inteiro. Inteire-se!

 

 

Sobre o autor:

Alex Valério é Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Psicólogo pela Universidade Nove de Julho. É redator no Portal Comporte-se, colunista no Psicologia Acessível e, também, escreve para o próprio blog. Realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos e casais. Está localizado na Avenida Paulista, em São Paulo. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia. Contato: facebook.com/ominutoterapia.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

3 comentários

  1. Sabe Alex, eu tenho pensado muito sobre esse assunto e concordo com você. As pessoas esperam suas “metades”, “almas gêmeas “, algo que as complete. Como se apenas um amor nos tornasse inteiros.
    Desde muito jovens somos criados pensando nesse relacionamento que nos trará felicidade e tudo aquilo que assistimos nos filmes, com direito a trilha sonora e tudo mais que compõe um sonho. Mas isso é só sonho (para mim pesadelo).
    Quando nos deparamos com a realidade, aí vem a decepção, a sensação de abandono e a procura pelo amor ideal…e mais sofrimento. Torço para que um dia esses filmes sejam só historinhas bobas, que não nos afetem como verdades e esperança de uma vida completa.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Miriam,
      Primeiramente, obrigado por comentar! É sempre bom saber que o texto alcançou alguém e, principalmente, que causou alguma identificação. Eu sigo na mesma torcida que a sua: esperando que os filmes que nos enchem de uma esperança ilusória, um dia sejam apenas histórinhas sem qualquer influência na maneira em como nos sentimos! 😉

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