O cotidiano de uma nação “feliz”

            Já reparou que estamos nos tornando mais virtuais, do que reais? Aliás, conheço pessoas que são uma espécie de holograma da vida perfeita. Essa era digital tem tornado a vida muito difícil. Várias vezes, seja ao ir para algum lugar ou quando estou sozinho, fico refletindo sobre como tirar a foto perfeita. Por perfeita, quero dizer que ela precisa mostrar: felicidade, beleza e “amigos” (ênfase na beleza e felicidade).

            Há redes sociais que são tão irreais, que até na publicação de fotos, há infinitos recursos que nos deixam menos de como somos, para nos aproximar daquilo que esperam de nós e que, principalmente, agradam mais aos outros. Até porque, é agradando os outros que, ultimamente, a gente consegue ser feliz (triste isso, não é?!). Deixamos de nos ver com os próprios olhos, para passar a nos enxergar através do número de likes, comentários ou quantidade de pessoas que atraímos (e quando não atraímos nada, deprimimos).

            Quando penso sobre essa dinâmica virtual e no quanto isso nos alcança, no dia a dia, tenho a impressão de que estamos mais solitários. Você sente o mesmo? É tanta gente se queixando da falta de alguém para compartilhar a vida, sendo que considerando os recursos tecnológicos e o acesso a informação, essa dificuldade, talvez, não devesse existir (além disso, é importante lembrar que foto de casal dá mais like e, portanto, todos temos que ter para não perder “popularidade” – nunca escrevi um parênteses tão irônico! rs).

            Esse movimento de embelezamento da vida, da sociedade e das pessoas, tem contribuído para nos tornar menos reais, menos sensíveis ao que há de verdadeiro nos momentos e nas relações que estabelecemos. Os pais de hoje em dia, não educam os filhos para que sejam crianças, mas para transformá-los em pequenos super-heróis. Infelizmente, não conheço nenhum super-poder que seja eficaz no combate a frivolidade dos tempos modernos.

            Confesso que, algumas vezes, me sinto impotente na resolução de alguns conflitos. Já pensei em me desfazer de alguns hábitos, como a conta do Facebook ou do Instagram. Tem horas que é deprimente ver a “felicidade” esfregada na minha cara, enquanto eu estou em casa, sem dinheiro e atribulado com atividades do trabalho ou da universidade. Sair desses sites, não deveria significar muita coisa, mas é quase como se desligar do “mundo”, se isolar numa ilha inalcançável e não ter acesso a pessoas e situações que só são possíveis através destas redes.

            O Instagram, confesso, é um dos apps que mais revelam meu potencial em sentir inveja. E, antes de me julgarem, não me orgulho de sentir inveja, mas na minha condição humana, não dá para controlar os sentimentos, além disso, tenho aprendido a deixar a hipocrisia de lado e tentado aprender a lidar com o que sinto (por que, pasmem: o que sinto é real – tô ficando bom na ironia com os parênteses! rs). Voltando ao app, toda vez que entro ali, vejo pessoas, lugares, comidas e um monte de outras coisas, que me lembram do quanto estou distante de alcançar qualquer uma dessas situações. E, de verdade, não há problema algum em estar distante disso, muitas destas coisas eu nem almejo na minha vida, mas sei que, assim como eu, muitas outras pessoas, se sentem pressionadas a acreditar que a vida só é boa se for assim. A felicidade, possível aos outros, passou a ser rara e exclusiva das situações virtuais.

            Não sou anti-evolução. Pelo contrário, sou apaixonado por tecnologia. Porém, me aborrece perceber o quanto sou refém desta nova maneira se relacionar e, também, do quanto elas me impossibilitam de ser mais real. Na realidade, talvez elas nos impeçam de ser quem somos e, pior que isso: tem nos impedido de gostar de quem somos.

            Honestamente, espero que o mundo possa “retroagir” um pouco e compreender que não é necessário interromper a realidade, para tirar uma foto, escondendo a barriga e optando pelo filtro que esteja mais adequado ao que as pessoas gostam de ver e curtir. Aliás, considerando os infinitos retrocessos políticos e sociais, aos quais somos diariamente submetidos, este fosse, talvez, um que eu gostaria de presenciar.

 

Sobre o autor:

Alex Valério é especializando em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Psicólogo pela Universidade Nove de Julho. É redator no Portal Comporte-se, colunista no Psicologia Acessível, no Educa2 e, também, escreve para o próprio blog. Realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos e casais. Está localizado na Avenida Paulista, em São Paulo. Além disso, oferece orientação psicológica através do PsicoOnline. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia. Contato: facebook.com/ominutoterapia.

 

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

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