Aquilo que eu sinto “de ruim”, também é meu

     Já percebeu que, ultimamente, temos competido por coisas que não precisariam que fossem competidas? A vida tem se tornado tão difícil que, muitas vezes, parece que estamos constantemente nos defendendo de perigos mortais. Mas, me digam: O que seria a tentativa de evitar o sofrimento, se não, uma forma de sofrer?

     Ao longo da nossa existência, aprendemos que, às vezes, sentimos coisas que não são “boas” – aliás, essa distinção entre bom e ruim é mais uma das coisas questionáveis que nos ensinam – e que, portanto, são proibidas de sentir. Culturalmente falando, há uma série de sentimentos que evitamos dizer que sentimos. Desde pequeno, por exemplo, ouvimos que sentir inveja “é feio”, então, caso um pensamento deste tipo nos ocorra, rapidamente nos esforçamos para fazê-lo desaparecer. Reparem que, nestas situações, nem nos permitimos pensar sobre o que nos causou aquela sensação.

     Outro problema dos tempos atuais, é nossa baixa tolerância a frustrações. Aliás, é como se as pessoas estivessem vivendo envolvidas por plástico-bolha. Quando outras pessoas se aproximam, acredita-se que elas só querem estourar nossas “bolhinhas” e depois descartar o que sobrar – se é que sobra alguma coisa. Há algo que sempre digo e que tem se tornado, para mim, uma espécie de mantra de motivação – sim, de motivação, por incrível que pareça –: Sofrer é inevitável.

     As pessoas querem parecer fortes e inabaláveis, o que é compreensível, quem não quer se sentir assim? A grande questão é: pra quê? É tanta gana por ganhar, que até quando nos relacionamos com outras pessoas – no sentido amoroso – continuamos competindo. O esforço para demonstrar desinteresse é assustador.

     Vejo algumas coisas que me deixam um pouco intrigado e que, em minha opinião, revelam mais sobre nós, do que nos deixa numa posição de superioridade. Já conviveu com alguém que, ao receber mensagem de um crush, demora um pouco antes de abrir, porque demonstrar interesse virou piegas e motivo de vergonha? Conheço pessoas que quando estão com vontade de falar com outra, ligam de propósito, mas depois explicam que foi “sem querer”. Aliás, falando em fazer coisas sem a intenção, enviar aquela mensagem com um “HAHAHA” depois dizer que apertou errado, também é clássica, não é?

     Penso que seria mais simples – e também mais assertivo – se pudéssemos dizer para a outra pessoa que queremos saber como ela está, sem medo de parecer interessado demais. Eu conheço os riscos da exposição, mas não dá para viver se protegendo o tempo todo. Viver envolvido em plástico-bolha, só te deixará mais preocupado com a própria “segurança” e, falando a verdade, a garantia de estar seguro nem é tanta. E, pior: você acaba sofrendo e acreditando que jamais vai aparecer a pessoa certa para você. Permita-se sentir. Inclusive, até se for para se sentir “trouxa” depois (às vezes é melhor se sentir assim, do que não sentir nada, acreditem!). Já diziam Os Menudos: “Não se reprima”!

     Como dizia Cássia Eller, “o pra sempre, sempre acaba”. Às vezes o que passou, se eterniza dentro de nós. Reconhecer o que sobrou é encarar a dor de uma perda que, apesar de dolorosa, pode ter sido muito importante. Sinta todas as suas tristezas e valorize as suas lamúrias. Aprender a conhecê-las, não significa que você irá permitir que elas te dominem, pelo contrário, nos tornamos mais fortes, na medida em que aprendemos a lidar com aquilo que não admitimos ou que desconhecemos.

     Decepções e desilusões são parte do existir. Quando olhamos para elas e, também, para tudo o que sentimos, aprendemos a respeitar a naturalidade de sua ocorrência e percebemos que são passageiras – algumas mais rápidas, que outras, (in) felizmente. Nenhum de nós se joga de cabeça de um penhasco, por saber que o resultado não será bom, mas quantas vezes deixamos de olhar para o que sentimos, só por acreditar que arriscar e perder seria equivalente a uma queda de um penhasco? Pode ser que seja, mas também pode ser que não. O único jeito de descobrir é arriscando. Aliás, numa dessas,  talvez você aprenda a voar.

 

Sobre o autor:

Alex Valério é especializando em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo. Psicólogo pela Universidade Nove de Julho. É colunista no Educa2, no Psicologia Acessível e, também, escreve para o próprio blog. Realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos e casais, em São Paulo. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia. Contato: facebook.com/ominutoterapia.

 

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

4 comentários

  1. Concordo com seu pensamento, é preciso demonstrar interesse e não tem medo de sentir o que realmente se sente, crescer com as dores e ser verdadeiro consigo mesmo, independente do que os outros vão pensar…

    Curtido por 1 pessoa

    1. É bem por aí! Não é fácil e requer uma coragem e tanto. Só não dá para gente se boicotar com medo de viver. A vida é uma só 😉
      Obrigado pelo comentário! ❤

      Curtido por 1 pessoa

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