O culto aos corpos definidos exclui os “indefinidos”

      Constantemente tenho a impressão de que estamos nos deixando padronizar, isto é, temos nos esforçado insistentemente para nos adequar ao modelo de pessoa tido como adequado e desejado socialmente. Vejam só as academias: estão repletas de pessoas que se submetem a horas de treino, na tentativa de perder peso, definir o corpo e, por fim, ficar mais bonitas (vamos admitir, a maior dos usuários de academias não estão lá porque gostam, os que adoram estar lá são a minoria).

      Temos vivido uma supervalorização da nossa forma física. Gordos querem ficar magros, já aqueles que são magros, querem ter massa. É quase universal o desejo de ter “gominhos”. Esse texto não fará sentido para muitos dos meus leitores, não vou falar sobre aceitação, vou apenas dizer que é difícil viver neste mundo, quando você faz parte de um grupo desfavorecido e que está nas margens do “tipo padrão de ser”. Só os negros são capazes de compreender com precisão o racismo, assim como, apenas os gays compreendem na pele a homofobia, as mulheres o machismo e, assim é com tantas outras minorias desfavorecidas. Ao dizer isso, não estou dizendo que aqueles que não estão no grupo não podem apoiar as causas, podem, aliás, devem. O que quero mesmo que entendam é: Você pode até imaginar como é, mas para compreender, é necessário viver na pele.

      Os que convivem comigo, sabem que vivo numa guerra com a balança. Estou há oito meses mantendo uma alimentação mais restritiva, retirei boa parte dos meus quitutes prediletos, diminui a comida em mais da metade e mandei embora cerca de 20 kilos, que, para minha médica – e para mim também – ainda não foram suficientes. A mudança na alimentação me trouxe uma série de melhorias físicas, mas seria hipocrisia dizer que fiz isso apenas por saúde.

      Tenho dois ou três colegas que fazem o mesmo que eu, só que do avesso (risos). Isso mesmo, eles querem engordar, já que se incomodam com a magreza e, pasmem, são julgados por ser como são. Esses dias eu pensava no quanto está ficando difícil viver no mundo que construímos. Se você é magro, te criticam por estar quase “raquítico”, já se tem alguns quilinhos a mais, o problema está no fato de ser gordo.

      Nosso peso se tornou, de fato, um peso e tanto a ser carregado. No geral, isso é triste para todo mundo, mas, principalmente, para quem é discriminado por ser como é. Outro dia, conheci uma pessoa que, inicialmente havia se interessado por mim, mas que perdeu o interesse ao olhar minhas fotos com mais atenção. Disse que não me faria perder tempo, recomendou que eu utilizasse parte dele – do tempo que me seria poupado – para fazer uma dieta (sim, aconteceu, foi terrível e a minha cara ficou no chão de tão chocado que fiquei).

      Agora, vamos mudar a ótica: Quantas mulheres magérrimas são ofendidas constantemente por não possuírem curvas? Essa veneração pelo corpo acabou nos despindo de aspectos que são importantes para as relações humanas. Aliás, empatia costumava ser algo que demonstrávamos ao outro, quando foi que isso se perdeu?

      A televisão exibe todos os dias, em suas novelas, atores tatuados, malhados e definidos. Diariamente temos aprendido que a vida acontece apenas para estas pessoas, as outras são esquecidas, passam despercebidas. Recentemente uma cantora pop brasileira contratou bailarinas acima do peso. Querem saber se eu apoio a atitude? Sim, admiro e achei o máximo. Agora, vocês acham que, quando vejo essas mulheres dançando, sinto certa estranheza? Sim, infelizmente. Infelizmente nossa cultura tem nos condicionado a ignorar todas as pessoas que fogem do padrão. Esquecemos que existem gordos, deficientes, albinos, negros e uma infinidade de outras características que são excludentes.

      Felizmente atitudes como a dessa cantora, nos ajudam a recuperar a esperança e, principalmente, a abandonar qualquer estranheza que possa ter nisso. Até por que, não deveria ser nada estranho. Está na hora de aceitarmos e respeitarmos as diferenças, não acham?

      Gostaria de acreditar que vivemos no mundo em que aquilo que importa é o que somos e não a aparência que temos. Tenho percebido um cenário cada vez mais cruel e devastador. Conforta-me saber que, constantemente, a vida vem, me surpreende e revela que ainda há esperanças, que a maioria não é o mesmo que todo mundo. Há exceções. E, falando nisso, eu quero ser como elas: quero ser exceção, não quero ser “padrãozinho”.

Sobre o autor:

Alex Valério é especializando em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo. Psicólogo pela Universidade Nove de Julho. Realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos e casais, em São Paulo. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia. Contatos: alex@minutoterapia.com ou facebook.com/ominutoterapia

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

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