“Amar” também pode ser sinal de abuso

“Quantas vezes sussurrei ‘Como vim parar aqui? Como virei essa mulher?'”¹

     Essa é a pergunta que inicia a reflexão dessa semana. Por ser dia dos namorados, pensei em escrever sobre relacionamentos, mas não queria redigir um texto meloso, enaltecendo a beleza do amor e, menos ainda, um texto frustrado, com palavras de um “solteirão” amargurado. Nós vamos falar de uma espécie de relação que tem se destacado e que, acreditem, causa uma série de efeitos colaterais em quem a vivencia.

     Para começar, precisamos deixar uma coisa clara: uma relação abusiva não é caracterizada unicamente por agressões físicas, elas também podem ser emocionais, verbais e/ou sexuais. Outro aspecto que também merece ser esclarecido: o abuso não ocorre apenas do homem contra a mulher – as pesquisas apontam que esse é o tipo mais comum –, mas eles também podem ocorrer de mulheres contra homens, mulheres contra mulheres, homens contra homens e algumas outras tantas combinações que são possíveis para os dias de hoje.

     Pessoas que são submetidas a relacionamentos como estes, tendem a sentir que precisam cuidar do parceiro, já que deixa-lo seria o mesmo que abandoná-lo. Também não é incomum a constante esperança que sussurra ao ouvido “ele(a) vai mudar, é só questão de tempo”. Normalmente achamos que quando a outra pessoa perceber o “tamanho” do nosso sentimento, terá condições de ser diferente. O triste é que as coisas não acontecem dessa maneira. Pouco a pouco, aquele que é abusado, vai se sentindo mais diminuído, culpado, controlado e – ouso dizer – vai perdendo a consciência de quem é e se deixa desconstruir, coexistindo na existência do outro.

     Quando, numa relação, você começa a perceber que tem se anulado em detrimento do outro e que seu parceiro sempre te responsabiliza pelos problemas da relação, epa! Talvez seja hora de pensarmos um pouco sobre isso. Não é fácil se perceber numa relação abusiva, acabamos tão mergulhados na intensidade do relacionamento e dispostos a atender plenamente as necessidades do outro, que acabamos negligenciando algo muito importante: NÓS.

     Há muitas formas de abuso e, de novo, é difícil percebê-lo e, ao perceber, é difícil se livrar dele. O abusador parece se tornar essencial e fundamental para que a vida continue fazendo sentido. O abusado sente vergonha, medo e acaba se isolando, sabe que se comentar o que passa com outras pessoas, acabará sofrendo com a avaliação negativa delas (sim, o mundo é cruel!). É desesperador! Algumas pessoas, nesta condição, sentem vontade de sair correndo sem nem olhar para trás, mas é como se a sola dos pés estivesse colada e fosse impossível dar qualquer passo em direção a saída.

     Não é saudável se relacionar com alguém que te faz de piada na frente dos amigos, que discorda constantemente das suas opiniões e desconsidera suas ideias, sugestões e necessidades. Se você está com alguém que te faz sentir mal consigo e que quer controlar a maneira como você se comporta, sendo necessário que você peça permissão para sair só, isso não é amor, é abuso.

Sobre o autor:

Alex Valério / CRP: 06/134435

Especializando em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo. Psicólogo pela Universidade Nove de Julho. Realiza atendimento clínico de adolescentes, adultos e casais. Atende em São Paulo (Região Central) e no Grande ABC. Já participou de projetos que envolveram pesquisa básica em análise do comportamento (desamparo aprendido e comportamento supersticioso), ações sociais com o público LGBT e pesquisa quantitativa com familiares de mulheres que estavam encarceradas. Além disso, tem experiência em Gestão de Pessoas, Treinamento e Desenvolvimento. É amante da arte teatral, tendo participado durante três anos de oficinas de teatro laboratório. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia. É colunista no Educa2, no Psicologia Acessível e, também, escreve para o próprio blog.

Contatos: alex@minutoterapia.com / facebook.com/ominutoterapia

¹ Por fim, mais do que escrever a respeito, deixo a leitura do texto que me inspirou este assunto. Espero que o discurso alcance vocês como me alcançou: “Eu costumava achar que era louca”

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

2 comentários

  1. Olá Alex!
    Adorei sua iniciativa de publicar este texto, muitas pessoas nem se percebem abusadas e abusando nos relacionamentos.
    Faço parte de um Grupo que trata exatamente sobre relacionamentos não saudáveis.
    Estou por aqui se precisar .
    Parabéns
    Bjs

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