Nossa geração agravante de (des) avanços “relacionológicos”

     Hoje em dia, a internet faz tudo por nós: paga nossas contas, comunica aquilo que gostamos, retoma amizades antigas e mantém as atuais, exibe as nossas fotos, viagens, os momentos de diversão e, inclusive, inicia os nossos relacionamentos amorosos. Sim, até amar se tornou uma das facilidades do mundo cibernético.

     Os avanços tecnológicos tem facilitado a vida de muita gente. Antigamente, era necessário sair, frequentar bares, ir a parques ou bibliotecas, enfim, ficar em casa e arrumar uma paquera era algo impossível. Atualmente, basta ter um smartphone para todas essas questões se solucionarem. Possivelmente a primeira grande conquista para os esperançosos e não tão habilidosos socialmente – ou ainda, não tão privilegiados de beleza física (não que isso importe, mas sabemos que, infelizmente, importa para muitos) – foi o Bate Papo Uol.

     Lembro que na época em que eu estava na escola, muitos contavam sobre conversas e pessoas que conheciam na internet. Era uma nova possibilidade que começava e que, como todo início, se mostrava maravilhoso. Como neste mundo, nem tudo são flores, logo, foi necessário se preocupar com os pedófilos, com os estupradores e com tantas outras formas que ameaçam as pessoas que se sujeitam a este tipo de contato.

     Com a popularização dos smartphones, apps como Tinder, Baddoo, Happn etc, passaram a ser os preferidos da galera que está na busca da carametade. O Facebook, por exemplo, tem sido utilizado para possibilitar novas amizades, mas também, para manter laços antigos, permitindo que as coisas continuem existindo, sem a necessidade da proximidade ou da presença física (algo parecido é permitido, também, pelo WhatsApp).

     Tantos progressos tecnológicos acabaram provocando alguma regressão comportamental. As pessoas não saem mais com a mesma frequência de antes, a priorização do “cara a cara” tem sido menos frequente. Temos nos contentado com os dedos na tela e com as imagens compartilhadas no Instagram. Aceitamos a distância, desde que, fotos sejam religiosamente compartilhadas. Valorizamos mais as dezenas de curtidas que o prato do almoço vai gerar, do que aquela conversa prazerosa e amigável com o parceiro que almoça conosco.

     Não quero que pensem que estou condenando a existência desses app’s, não estou. O Facebook é bastante divertido e, de fato, facilita alguns contatos. Os apps de relacionamento são formas de conhecer pessoas, principalmente para aquelas que não têm o costume de sair ou que não são muito habilidosas socialmente. Mas, pessoal, o mundo não é só isso. Precisamos extrapolar e ir além disso. É comum, em apps como o Tinder, por exemplo, pessoas colecionarem “matchs” – são combinações, ou seja, pessoas que gostaram uma da outra e, por conta disso, combinaram – e se contentarem com isso. Outros, começam ali, trocam meia dúzia de palavras e desistem. Há pouca disposição em tornar realidade, aquilo que é apenas virtual. Para concretizar algo, é necessário sair da comodidade e segurança que a tela do celular nos traz. Usem os apps, mas vivam. O virtual não precisa ser só virtual, ele pode ser real de uma maneira diferente da que é.

     Enfrentamos, infelizmente, um cenário de crise. Aliás, aqui no Brasil essa palavra parece estar na moda. É crise financeira, crise na educação, nas políticas públicas e, agora, também nas relações. Sim, as relações estão em crise. Vejam, não há problemas em iniciar relacionamentos pela internet, não há problemas em usar todos esses recursos a favor das possibilidades de criar novos laços ou de manter os antigos. O problema começa quando deixamos de estar presente com aquelas pessoas reais, ou ainda, quando não nos permitimos situações novas, com medo da realidade.

     Costumo dizer que a internet tem um efeito “perfeitificador”. Isto é, ela tende a gerar uma versão “perfeita” de nós mesmos. Lá conversamos sem dificuldades, somos divertidos, temos coragem para dar nossa opinião e, também, para demonstrar nosso interesse em uma pessoa. É mais fácil se comportar sozinho, de frente para o computador, do que se submeter a avaliação de tantas outras pessoas, quando estamos frente a frente. O mundo é cruel, sabemos.

     Somos uma geração que resolve tudo com facilidade, mas temos uma tendência a solidão e depressão – aliás, com tanta evolução e novas facilidades, o transtorno depressivo deveria ser raridade, não? – e isso tem se agravado. Restringimos-nos a nós mesmos e só somos capazes de algo quando estamos em um mundo que difere-se um pouco do real, que não é de “mentira”, mas que, também, não é de verdade. Há coisas que não substituem o calor de um abraço, o aconchego de um sorriso, a diversão de gargalhas conjuntas e o brilho do olhar. Há traços humanos que, por mais que se avance, não são substituíveis.

     Você, atualmente, tem sido real ou virtual?

Sobre o autor:

Alex Valério / CRP: 06/134435 / Contato: alex@minutoterapia.com ou facebook.com/ominutoterapia

Especializando em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo. Psicólogo pela Universidade Nove de Julho.

Realiza atendimento clínico de adolescentes, adultos e casais. Atende em São Paulo (Região Central) e no Grande ABC.

Já participou de projetos que envolveram pesquisa básica em análise do comportamento (desamparo aprendido e comportamento supersticioso), ações sociais com o público LGBT e pesquisa quantitativa com familiares de mulheres que estavam encarceradas. Além disso, tem experiência em Gestão de Pessoas, Treinamento e Desenvolvimento.

É amante da arte teatral, tendo participado durante três anos de oficinas de teatro laboratório. Possui interesse em poesia, literatura, crônica, cinema, música e tecnologia.

É colunista no Educa2, no Psicologia Acessível e, também, escreve para o próprio blog.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

4 comentários

  1. Sou mais real do virtual! Ainda sou muito mal interpretada quando quero ficar só. A tecnologia como tudo em nossa vida, tem seus benefícios e malefícios, mas ela parece ter o poder de nos obrigar a ser alguém diferente. E assim faz com que muitas pessoas, principalmente os jovens, vivam uma constante crise existencial, na questões de ser ou não ser, ter ou não ter o que nem sempre é necessário.

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    1. Eu fico pensando que, talvez, seja algo bastante comum nos dias de hoje, pessoas que se comportam como você. De fato, nos tornamos tão dependentes da “virtualidade” e ficamos menos sensíveis ao contato humano cara a cara.
      Você comentou “sei que não é normal”. Classificar como “normal/anormal” é muito tênue. É importante entender porque o celular é tão importante e porque é mais fácil ficar sem os amigos reais, do que sem o celular. Enfim, boas reflexões acerca de nós mesmos é sempre um convite complicado, mas importante 😉

      Curtido por 1 pessoa

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