Um pedaço de você, talvez?

     Giulia estava sentada em sua cama, mirando os pés e tentando encontrar coragem para levantar e encarar o mundo lá fora. Ela pensava nas atividades sem fim e conferia a agenda do celular para garantir que não esqueceria nenhuma das coisas que programou. Ela achava curioso o fato de reclamar da falta de tempo e, mesmo assim, acrescentar mais compromissos em sua rotina diária.

     Em algum lugar de si, acreditava que os diversos compromissos poderiam preencher os vazios que a vida insistia em lembrar que estavam lá. Mas as estratégias de fugir desses sentimentos não eram tão eficazes, até porque há algumas variáveis incontroláveis. Vira e mexe ela dava de cara com aqueles casais melosos, sedentos e que “emanam” paixão. Rapidamente tentava desviar o olhar, mas o estrago já estava feito. Os pensamentos de “porque não eu?” já irradiavam e a acompanhavam pelo resto do dia – ou da semana.

     Quanto mais se esforçava para fazer as coisas corretas, mais tudo parecia dar errado – ok, nem tudo, Giulia tinha uma veia dramática e costumava aumentar a proporção de seus sofrimentos. Tentava fazer o que fazia da melhor maneira que conseguia, mas nem sempre o que lhe parecia bom, era suficiente aos olhos dos outros. Aliás, as pessoas se esquecem do fato de que, numa relação – ainda que de amizade –, há duas pessoas, logo, o vínculo é responsabilidade de ambas, não de uma delas. É como uma flor, a amizade se não for regada, morre, acaba, finda seus dias.

     Não há eternidade que se perpetue se houver apenas ausência e, pior, não há credibilidade que se mantenha se faltar coerência. Hoje você fala mal de fulano, amanhã você pede ajuda a ele e, depois de amanhã, corta relações com a pessoa para não ter de enfrentar, diariamente, as mentiras que inventou e que já não colam mais.

     Giulia até tentava fugir dos problemas, mas eles pareciam querer acompanha-la. E se tem algo que ela não sabia, esse algo era ser mais ou menos. Ou se colocava inteira ou nem saía de casa. Para ela, meio termo é posicionamento de gente covarde, sempre se doava e, como esperado, acabava se estatelando muitas vezes. De tanto se quebrar, talvez, se tornou mais dura, afastou pessoas, se trancafiou no quarto e fez amizade com as séries e os livros.

     Passava tanto tempo sozinha que, de vez em quando, se considerava uma péssima pessoa. Considerava-se triste e solitária, mas quem a conhecia sabia que havia muita alegria, vontade de viver e, principalmente, de brilhar. Ah, como sonhava em brilhar, em ser feliz, em ter uma vida de cinema. Aliás, para ela o cinema era um dos amores e hobbies prediletos, se perdia nas ilusões cinematográficas de Hollywood e deixava de distinguir – por uma hora ou um pouco mais – as possibilidades, das irrealidades. Lá ocorria uma espécie de magia, um local em que tudo era possível. Tudo, inclusive o amor.

     Aliás, esse era um tema controverso. Ela não podia se queixar da falta de pretendentes, eles até existiam. O que faltava mesmo era alguém com um currículo suficientemente bom para cumprir todas as exigências da garota. Para ela, não eram tantas, mas para aqueles que a rodeavam, eram intermináveis. Sua teimosia a impediam de muitas coisas, inclusive, de aceitar a necessidade de compreender melhor alguns aspectos obscuros de sua vida. Seguia, com uma porção de amargura e auto-boicote. Achava-se tão invencível, mas, pouco a pouco, era vencida pela vida e pelo mundo. Era criadora de seus próprios fantasmas e suas próprias sombras.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

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