Deixa de ser bobo, deixe alguém gostar de você. Goste-se também!

Sabe-se que boa parte das pessoas já sofreram alguma desilusão amorosa, já choraram por horas a fio e se trancafiaram no quarto para assistir aquele filme ou aquela série triste. O amor é remédio para muitas mazelas da vida. E, assim como os medicamentos, pode causar alguns efeitos colaterais aos que aceitam se aventurar por seus territórios. Além disso, há algum risco de dependência, de prejuízos a saúde, mas também, uma possibilidade infinita de superação daquilo que nos angustia. Ter alguém ao lado, como tudo na vida, pode propiciar infinitas possibilidades. Não há como generalizar e ter certeza de que todas serão boas, o que precisamos fazer é experimentar. Assumir o risco e ir com medo mesmo.

       Alguns tentam sempre e, de tanta decepção, já desistiram e acabaram aposentando o coração. Outros, porém, apesar de não terem tido a sorte de encontrar uma relação que se estenda pela vida, não desistem nunca. Gostam da sensação que o gostar de alguém produz.  Encaram, com medo, mas ainda assim, encaram. Amedrontados e esperançosos, essas pessoas seguem em frente.

       Gostar de alguém é algo bastante especial. Creio que seja por isso que muitos estão, constantemente, querendo encontrar uma pessoa para compartilhar alguns momentos. É tão difícil encontrar alguém que tenha pensamentos semelhantes, que nos atraia e que, também, se interesse por nós. Geralmente nos encantamos mais com pessoas improváveis. Há, neste ponto, uma tendência significativa ao autoboicote.

      Confesso que a paixão acaba assustando um pouco, é estranho sentir aquela sensação de incontrolabilidade! Não há controle dos pensamentos, o peito parece arfar sem parar, os batimentos parecem irregulares e o sorriso… O sorriso bobo brinca nos lábios sempre que você se lembra de algo especial ou quando chega uma mensagem daquele ser humano que você está a fim. Isso sem falar no desejo constante de estar sempre junto.       

      Infelizmente – ou não, depende do ponto de vista – nem sempre estamos empenhados na tarefa de gostar de alguém. Algumas pessoas são acometidas por um constante vazio. Normalmente são pessoas que, naquela tarde de domingo, curtem a preguiça e sentem que algo não está completamente bem. É como se algo lhes faltasse. Gostariam de preencher parte daquela solidão e dividir com outra pessoa.

   O curioso da vida são os paradoxos. Enquanto uns não sentem nada, outros sentem pelo mundo. Há pessoas que quase não ficam sozinhas. Experimentam uma nova “história eterna de amor” constantemente. Tenho certeza que você conhece alguém que publica juras de amor no facebook e que afirma ter encontrado a pessoa certa. Alguns meses depois, o romance perfeito acaba e, logo menos, outro inicia e novas promessas são lançadas e jogadas na rede.

   Outro padrão não incomum são dos que querem sentir, mas não sentem por que temem. Normalmente são pessoas que gostam da sensação que o gostar produz. Aliás, é comum desejar que apareça alguém montado num cavalo branco e que o carregue na “garupa” (cavalo também tem garupa? risos) até o “felizes para sempre”. Apesar de desejar e de querer, ele não consegue permitir que isso aconteça. Tem medo demais. Medo de sofrer, de ser enganado, de acabar abandonado – como já pode ter acontecido. Prefere acreditar que não possui habilidades para relacionamentos e, diante da perspectiva de um, sai correndo. Quando não corre, espanta quem se aproxima.

   Antigamente gostar de alguém era algo que todos queriam contar e gostavam do sentimento que tinham. Escreviam cartas, declaravam seus sentimentos, faziam serenatas, contratavam aqueles fusquinhas bregas que passavam na rua anunciando o amor que uma pessoa sentia pela outra. Flores, bombons, jantares e tantas outras coisas eram permitidas. Hoje em dia, com tantos avanços tecnológicos, parece que estamos nos tornando “meio máquinas”, menos humanos e, pior, crendo cada vez menos nos romances que vemos nos livros, nos filmes ou naquelas histórias infantis que ouvíamos quando crianças.

   Conseguem perceber que o mundo mudou? Nesse sentido, creio que tivemos avanços e retrocessos. Nos tempos atuais tem se apoiado as diversas maneiras de amar. Tem se explorado e divulgado a diversidade, a igualdade de gêneros – ainda há uma luta grande para se travar, mas já é possível colher algumas flores.

   Infelizmente não foram só progressos. Abandonamos comportamentos que são significativos e importantes para o bem estar do casal e nos mantemos inábeis para lidar com conflitos. Há casais que se relacionam mais via WhatsApp, do que pessoalmente.  (Faço uma ressalva aqui aos que, devido a distância, adotam esse tipo de comunicação – que em casos como estes, pode ser uma das únicas – para manter a relação). Distância à parte, alguns estão muito próximos, se veem constantemente, mas na hora de falar sobre a relação, de conversar abertamente sobre o que produz algum prejuízo ao relacionamento, optam por fazer isso virtualmente. Mais fácil, claro. Você evita o olho no olho e demonstra aquilo que sente através das tecnologias. Acreditem se quiser, mas já soube de casos em que a relação terminou através de uma mensagem de texto. Anos de juras e sonhos em conjunto, acabam com um “Não quero te fazer sofrer”.

   São, obviamente, situações como estas, que levam as pessoas optarem por se esconder e sair correndo – muitas vezes essa decisão nem é consciente, mas uma maneira de se esquivar e evitar mais sofrimento. Quando você gosta de alguém, você fica vulnerável. Permitir que alguém se conecte, de maneira especial e significativa, é abrir algumas portas para que alguém possa entrar e ver sua bagunça de perto. É difícil saber qual o momento certo de se deixar observar. Aliás, será que existe um momento? Há quem diga que uma relação só deve se tornar namoro após 6 meses; dizer “eu te amo” só pode depois de um ano. Quem nunca ouviu que o casamento deve ocorrer em até dois anos? Aliás, costumam dizer que mais tempo que isso, é enrolação. Já há tantas regras sociais que precisamos respeitar, é mesmo necessário criar outras tantas para um sentimento que deveria, unicamente, produzir bem estar e cuidado?

    Você que se queixa da solidão, tem feito algo diferente por si? Tem tentado outras formas de apaziguar o coquetel de sentimentos que te aprisiona e escraviza? Lidar com tudo isso não é fácil. Tomar uma atitude é muito difícil. Manter-se na mesma não te tira de lugar algum, pelo contrário, tende a tornar-te mais infeliz.

     Newton, na terceira lei da física, alegou que toda ação causa uma reação. Não muito diferente disso, Skinner, em seus estudos a respeito do comportamento, destacou que tudo aquilo que fazemos no mundo produz alguma consequência e essas consequências produzem mudanças em nós. Nesse sentido, quais têm sido as consequências que você tem produzido no mundo e como elas têm repercutido sob você? Quando você decide não fazer nada, o que tem sentido? Você diria que as coisas se mantêm as mesmas ou será que o tempo tem intensificado todas as insatisfações, tristezas e amarguras que já começam a fazer parte do que você é? Não há como saber, não há regra. Há, porém, novas possibilidades todos os dias. Faça algo diferente, para produzir algo diferente. Aprender a lidar com o desconhecido é, também, uma maneira de conquistar novas possibilidades. Experimente!

     Deixa de ser bobo, deixe alguém gostar de você. Goste-se também!

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

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