Existe um pouco de Giulia aí dentro de você?

      Era sábado, início de um feriado prolongado que começava naquele fim de semana. Na TV noticiavam sobre o trânsito que se estendia aos que se dirigiam ao litoral, no Facebook reinavam as cores de quem se divertia pela região. Ali, numa casa pequena, localizada em uma grande cidade, Giulia mirava o teto do próprio quarto.

        Na tentativa de se enquadrar, de poder publicar momentos de diversão, deslizava os dedos pela tela do celular, buscando nas conversas infinitas de seu WhatsApp, alguém com quem pudesse conversar um pouco ou alguma alternativa que lhe permitisse interromper aquele momento em que ela só tinha a si mesma. Repetiu algumas vezes, sem esperanças, a sua tentativa de encontrar, mas, nada lhe parecia convidativo e, para sua tristeza, não se sentia parte de ninguém.

      Giulia morava com os pais e um irmão da mesma idade, gêmeo. Apesar de estar, constantemente, com a casa repleta de familiares, não se sentia parte dali. Sonhava, timidamente, com o dia em que poderia rumar para um novo caminho, esperando encontrar um lugar além do horizonte, que fosse bonito, tranquilo e, claro, tivesse alguém para amar (a música lhe prometera que esse lugar existia).

      E, por falar em amor, ela desejava, quase desesperadamente, encontrar alguém para amar. Tinha, em seu celular, uma dúzia de apps de relacionamentos. Conferia, religiosamente, se havia recebido alguma mensagem ou uma nova combinação.

      Era uma menina divertida, inteligente e exoticamente bonita. Era diferente do padrão de beleza que esperavam e tinha consciência disso. Quando olhava para si, recolhia-se espantada. Receava cair e se afogar no poço de insegurança que havia construído em seu íntimo.

      A cada novo match, a cada conversa iniciada, ela ansiava pelas primeiras palavras, investigava sobre as ideias e interesses de seus pretendentes. Passadas algumas horas de conversa, decidiam trocar o app de contato, com intuito de tornar a conversa ainda mais próxima. Percebia que alguns desapareciam pouco depois do roteiro inicial (Oi, tudo bem? Mora onde? O que faz da vida?). Em contrapartida, havia rapazes agradáveis e que contribuíam para que o papo rendesse. Horas e risos de conversas depois, ela segurava o celular nas mãos, um sorriso bobo e repleto de esperança brotando no rosto. Pensava no primeiro encontro, na roupa que usaria, no sabor do beijo, nas mãos que se entrelaçariam, no sexo que selaria a paixão, no pedido de namoro, no casamento e nos filhos que iriam ter.

      Frustrada infinitas vezes em suas expectativas, sentia que aquele ali não era o seu lugar. Sentia-se diferente, era como se suas tentativas de aproximação, acabassem por torna-la ainda mais distante; por fim, via-se cada vez mais longe, cada vez mais só. Sabia que podia contar com tanta gente, mas não sabia como fazer e, menos ainda, se deveria fazer algo. Apenas seguia.

      Tinha tantos medos… Medo de não conseguir sucesso na profissão que escolhera, de não trabalhar suficientemente bem, desagradar os que estavam a sua volta e que contavam contigo. Temia não orgulhar os pais e chatear os amigos. Tinha duvidas se a maneira como se portava ou como se vestia era adequada e condizia com o que era esperado das pessoas no mundo em que vivia.

      Sabe aquela história de que o universo nos devolve em dobro aquilo que jogamos nele? Giulia acreditava nisso e torcia para que as coisas boas que fazia pudessem retornar à ela. No fundo, envergonhava-se por esperar algo de volta. Havia aprendido que deve fazer o bem, sem esperar nada. Ela não entendia muito bem o porquê era proibido desejar que algo de bom acontecesse, na medida em que só fazia o bem, mas não questionava. Aprendeu que algumas coisas são como são, porque sempre fora assim.

      A garota de cabelos cacheados e olhos negros feito jabuticaba, mirava-se no espelho de seu quarto sem sorrir, admirava seus olhos escuros de que tanto gostava, mas que, com o tempo, teve seu apreço por eles diminuído: seriam mais bonitos se fossem azuis, aprendera.

      Não entendia bem como a vida funcionava, sentia-se única e, ao mesmo tempo, era como se fosse comum, apenas mais uma que, como tantas outras, sofria por motivos diversos e infinitos. Reduzia sua dor ao compara-la com a das pessoas que viviam em condições miseráveis e abusivas.

      Sentia que já não era a mesma de ontem e estava certa de que amanhã, seria alguém diferente, mudada, mutável. Seguia sua vida remando, sem destino exato, sem saber bem onde chegaria, apenas ia. Havia saído do lugar? Será que estagnara? Logo afastava os pensamentos da cabeça, tinha de estar sempre feliz. Ser triste espanta as pessoas, só a felicidade é admirável.

      Por fim, de tanto pensar, ela deixou o celular de lado, ligou a televisão e fugiu de si e dos demais. Optou por se trancafiar, dizendo para si mesma que já não tinha idade para tanta curtição. Alegou que preferia passar os dias em casa, descansando de sua exaustiva rotina de trabalho. Os pensamentos findaram e o coração acalmou quando, na tela da tv, assistia a vida dos seus sonhos, vivida por outro alguém que não era ela. Na medida em que chorava, sonhava. Sonhava e chorava. Desejava e, de tanto querer, sentia-se cada vez mais só. Mais distante do mundo, mais distante de si.

Escrito por Alex Valério

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contatos: E-mail: alex@minutoterapia.com Fanpage: facebook.com/ominutoterapia Insta: @minutoterapia

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